Quotidiano: Século XIX
A cidade - Porto
«Esta nossa cidade - seja dito para aquelas pessoas que porventura a conhecem menos - divide-se naturalmente em três regiões, distintas por fisionomias particulares:
A região oriental, a central e a ocidental.
O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o brasileiro; o ocidental, o inglês.
No primeiro predominam a loja, o balcão, o escritório, a casa de muitas janelas e extensas varandas, as crueldades arquitetónicas, a que se sujeitam velhos casarões com o intento de os modernizar, o saguão, a viela independente das posturas municipais e à absoluta disposição dos moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de polícias; as ruas, em cujas esquinas estacionam galegos armados de pau e corda e as cadeirinhas com o capote clássico; as ruas ameaçadas de procissões, e as mais propensas a lama, aquelas onde mais se compra e vende; onde mais se trabalha de dia; onde mais se dorme de noite. Há ainda neste bairro muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as aparências modernas, que revestiu.
0 bairro oriental é principalmente brasileiro, por mais procurado pelos capitalistas que recolhem da América. Predominam neste umas enormes moles graníticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de azulejo-azul, verde ou amarelo, liso ou de relevo; o telhado de beiral azul; as varandas azuis e douradas; os jardins cuja planta se descreve com termos geométricos e se mede a compasso e escala, adornados de estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro, com o nome do proprietário e a era da edificação em letras também douradas; abunda a casa com janelas góticas e portas retangulares, e a de janelas retangulares e portas góticas; algumas com ameias e mirante chinês. As ruas são mais sujeitas à poeira. Pelas janelas quasi sempre algum capitalista ocioso.
O bairro ocidental é o inglês, por ser especialmente aí o habitat destes nossos hóspedes. Predomina a casa pintada de verde escuro, de roxo-terra, de cor de café, de cinzento, de preto... até de preto! - Arquitetura despretensiosa, mas elegante; janelas retangulares; o peitoril mais usado do que a sacada. -Já uma manifestação de um viver mais recolhido, mais íntimo, porque o peitoril tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo de jardins assombrados de acácias, tílias e magnólias e cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas. Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de fazerem desesperar curiosidades. Ninguém pelas janelas. Nas ruas encontra-se com frequência uma inglesa de cachos e um bando de crianças de cabelos louros e de babeiros brancos.
Tais são nos seus principais caracteres as três regiões do Porto; sendo desnecessário acrescentar que nesta, como em qualquer outra classificação, nada há de absoluto. Desenhando o tipo específico, nem se estabelecem demarcações bem definidas, nem se recusa admitir algumas, e até numerosas exceções, hoje [1868] mais numerosas do que então, em 1855.»

Júlio Dinis, Uma Família inglesa, 1868, cap. IV

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Dicionário:
Capitalista
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O Porto no século XIX
A cidade - Coimbra
"Situada sobre a encosta de um monte de onde desce em anfiteatro até ao Mondego, apresenta uma fisionomia pitoresca e originalíssima. Coimbra é propriedade exclusiva dos senhores estudantes que têm à sua disposição um café e um teatro!"

Maria Ratazzi (século XIX)

Outras Informações
A cidade - Setúbal
«Setúbal é, como naturalmente sabem, uma cidade pequena na margem do Sado, vivendo magramente de banhistas e fábricas de sardinha. Tem quatro velhas paróquias [...] ruas malcheirosas, uma grande avenida marginal sem um cais para ocultar a imundície da praia coberta de dejetos [...]. Tem alguns jardins e uma estátua do Bocage vestido de criado de ópera ao pé de um chafariz seco.»

Fialho de Almeida (século XIX)

Outras Informações
A vida na cidade - Habitação do operariado
"[As ilhas] alojam dezenas de famílias. São (...) cubículos [...] cheios de porcaria. [...) Aí se acolhem as classes operárias que pagam o seu direito de residência a preço mais elevado do que as classes remediadas."

Ricardo Jorge, Demografia e higiene da cidade do Porto, 1899
(adaptado)

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Dicionário:
Operário
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Bairro Operário (séc. XIX)
A vida na cidade - Vida nocturna
"0 Guichar, por 1850, era um dos botequins preferidos. Ocupava, com as suas salas de jogo, todos os andares do prédio. (...) Entre conhaques e cafés contavam-se os escândalos da sociedade. (...) Célebre foi também o Águia d'Ouro confidente de todos os segredos políticos e artísticos desta terra.
(...) Noites havia em que todo o Porto elegante se dirigia em massa ao teatro S. João.
Em noites de grande espetáculo as imediações do teatro tinham o especto duma feira, tal a quantidade e confusão de carros, carroções e cadeirinhas.
A sala enchia-se a transbordar duma multidão expansiva e animada.
Rebentam as primeiras palmas, estruge uma formidável pateada. Há bravos e assobios."

A. Magalhães Bastos, "0 Porto do Romantismo"
(adaptado)

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XIX-Jornalistas à porta do café
A vida na cidade - As festas e os bailes
"Para a época de 1842 despende-se, em convites, mais de metade do que se gasta no funeral da infanta D. Maria (...).
(...) Rodopiam as salas de balão guarnecidas de falhos e apanhados. Volteiam os pares: as mulheres, de braços, costas e seios descobertos, e trança enrolada no alto da cabeça segura por bandós - os homens fardados ou de casaca azul e verde bronze abotoada de prata e oiro, cala de ganga franzida com lista, colete florido, gravata tufada e sapato de verniz.
(...) Dispersos pelos salões, os homens e as mulheres conversam, em pequenos grupos. Fala-se de política, de negócios e de literatura, entre outros assuntos menos sérios. Come-se e bebe-se."

António J. Saraiva, 0 Palácio de Belém

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XIX-Uma festa
A vida na cidade - Os cafés (1)
"No começo do século XIX, uma dose de café custava trinta réis. Era habitualmente falsificada com fel de vaca, tremoços, favas e cascas de piorno, tudo moído e muito mal apresentado.
Tanto no café Nicola como no Botequim das Parras (logo ao lado) reuniam-se, nos primeiros anos de oitocentos, muitos dos escritores e políticos que o intendente Pina Manique trazia debaixo de olho.
Um dos episódios mais conhecidos da vida de Bocage passa-se precisamente à porta do Nicola, numa noite em que o poeta foi detido por uma patrulha da Polícia que o intimou a responder às perguntas habituais. Longe de mostrar receio, Bocage versejou no seu habitual tom jocoso:

Eu sou o Bocage
Venho do Nicola
Vou pró outro mundo
se dispara a pistola.

Ao cair da tarde, quando começava a esvaziar-se o Passeio Público e antes que as famílias mais abastadas retomassem o seu camarote no S. Carlos, passava-se pelo Marrare. Ali se combinavam as pateadas de S. Carlos, se reuniam os aficionados para as esperas de touros, se discutiam os governos, se insultavam os ministros, se combinavam os duelos, se preparavam as revoluções.
Mas o ambiente do café nem sempre era dos mais calmos.
Em 1890 (aquando do publicação do Ultimato Inglês), o político João Chagas saiu do Martinho uma noite, seguido por muitos partidários republicanos. Ainda à porta começaram os gritos de Viva a República! Abaixo a Inglaterra! Abaixo a Monarquia! "

Maria Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. I

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Dicionário:
República
Republicano
Ultimato
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Passeio Público de Lisboa
Teatro S. Carlos
XIX-Jornalistas à porta do café
A vida na cidade - Os cafés (2)
"[O café Marrare] Era o príncipe dos botequins, que então abundavam desde o Chiado até à Rua Larga do Loreto; era o café do bom-tom. Aí se agrupavam alguns dos mais ladinos jogadores do xadrez político, (...) aí se modulavam, entre o café e o cognac os trechos mais perturbantes da Maledicência. (...) Às portas casquilhava a fina-flor alfacinha, os chefes de família, cortejando as damas que passavam, rastolhando sedas crepitosas, rubricadas por Levaillant ou Lombré, as notáveis modistas.
(...) As bebidas do "Marrare do Chiado" eram todas de primeira ordem. Os sorvetes tinham o encanto indefinível da neve polar, o chocolate era do melhor, o champanhe parecia sorrir (...), das garrafas alinhadas nas prateleiras dir-se-ia escapara voz embriagante da tentação...
A memória deste café não se apagará tão cedo debaixo da cinza parda do tempo."

PINTO DE CARVALHO Lisboa D'outros Tempos
(Adaptado)

Outras Informações
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XIX-Jornalistas à porta do café
A vida na cidade - O Teatro
"0 Teatro de S. Carlos em Lisboa era frequentado pela família real e pelas pessoas mais importantes. Ali se realizavam peças de teatro, óperas e outros espetáculos que agora são próprios de circo: trapezistas, ilusionistas, malabaristas, etc.
Em 1818 um artista inglês chamado Robertson fez grande sucesso por exibir bonecos mecânicos e aparelhos que nunca ninguém tinha visto. A plateia desvairou quando ele conseguiu reproduzir os ruídos da chuva e da trovoada!"

Outras Informações
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Teatro S. Carlos
Bibliografia:
MAGALHÃES, A.M.; ALÇADA, I. (1993). Um Trono para dois Irmãos. Lisboa: Editorial Caminho.

A vida na cidade - O passeio público (1)
"Em Lisboa, no sitio onde é hoje a Avenida da Liberdade, havia um jardim muito bem arborizado a que se dava o nome de Passeio Público. As famílias vestiam-se a rigor para irem até lá pavonear-se. Nas noites de Verão iluminava-se o jardim com velas e balões, organizavam-se fogos-de-artifício, vinham músicos tocar."

Outras Informações
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Passeio Público de Lisboa
Bibliografia:
MAGALHÃES, A.M.; ALÇADA, I. (1993). Um Trono para dois Irmãos. Lisboa: Editorial Caminho.

A vida na cidade - O passeio público (2)
"Para se entrar no Passeio Público tomava-se necessário ter gravata. Os que a possuíam tinham lugar entre as árvores, por onde o sol se escoava em doirados e penumbras. Lá dentro, entre flores e arvoredos, respirando no ar o perfume das hortas, dos jardins e dos pomares da vizinhança, o visitante sentia-se bem e as crianças juntavam a música dos seus risos ao chilrear da passarada. Pelo cair das tardes quentes de Verão, pelas noites calmas ou poentes outonais, quando as folhas amarelecidas das formosas árvores atapetavam as áleas, o Passeio Público era o mais belo recanto de Lisboa. Nele, cerca das 4 horas da tarde, entravam as elegantes. Às 6 horas uma sineta convidava os passeantes a retirar. Fechava, então, reabrindo às 8, com música e entradas pagas."

in Portugal Contemporâneo

Outras Informações
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Passeio Público de Lisboa
A vida na cidade - O passeio público (3)
"Àquela hora D. Felicidade e Luísa chegavam ao Passeio. Já de fora se sentia o "bruhaha" lento e monótono (...). Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Basílio (...). Entre as duas filas paralelas de árvores, entremeadas de candeeiros de gás, apertava-se uma multidão; e através do rumor, a música fazia passar, no ar pesado, compassos vivos de "valsa".
Tinham ficado parados, conversando.
Que calor, hem? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem!
Que encontro!
E olhavam a gente que entrava (...).
D. Felicidade quis então saber as horas. Começava a enfastiar-se Na sua cadeira, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, numa névoa empoeirada.
Mas a música, no "coreto", bateu de repente, alto, a grande ruído de cobre, os primeiros compassos (...). Aquilo reanimou-a.
Toda a burguesia domingueira viera amontoar-se na rua do meio."

Eça de Queirós, "0 Primo Bazílio"
(adaptado)

Outras Informações
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Passeio Público de Lisboa
A vida na cidade - Os vendedores ambulantes
"As ruas das grandes cidades de Lisboa e Porto, no século XIX, eram todos os dias percorridas por vendedores ambulantes.
Logo de manhãzinha, deambulavam pela cidade a apregoar" os seus produtos. Todos procuravam conquistar a freguesia, fazendo-se anunciar pela sua alegre cantilena.
Também se distinguiam pelo seu vestuário e pela mercadoria que carregavam, o que lhes dava uma aparência inconfundível.

Em Lisboa

- "I érre, érre... Mexilhão!
- "QuEm-quEr - Figos? ... QuEm-quER AlmoçAr? ... Oh! fiGuinhos de Capa Rôta!"
- "Azeiti... i ... i..."
- "Leiti ... leiti... i"
- "Dôci ... i ... i"
- "Com-PRó-ra-Mi-nho-de-Flôres"
- "Oh! Olh ... cabaAz de Morangos!"
- "MER-ca-chinÉ-1os-e-sa-Pá-tos de Cór-da"
- "Oh viva da costa!..."

No Porto

- "Olha a rica Uva do Doiiiro! Quem compra a uva de cima do Doiro?...
- "Loiça de FOlha, barata!... Quem MErca a loiça de folha."
- "SAbão a vintém! QUem merca o sabão!..."
- "Melões de Coimbra tão bôs!... QUEm merca os melões de Coimbra!...`
- "Chora menino chora, pelo rapaz das cestas que se vai embora!..."
- "Eh! BrÔA de Avi-i-intes!..."

Outras Informações
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XIX-Figuras típicas de Lisboa e do Porto (1)
XIX-Figuras típicas de Lisboa e do Porto (2)
XIX-Figuras típicas de Lisboa e do Porto (3)
XIX-Figuras típicas de Lisboa e do Porto (4)
Bibliografia:
COSTA, F.; MARQUES, A. (1992). História e Geografia de Portugal - 5º ano. Porto: Porto Editora.

A vida no Campo - Alimentação (1)
"Na mesa, encostada ao muro denegrido, dos candeias, sobre uma toalha de estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam grossos pratos de louça amarela, ladeados por colheres de estanho e por gados de ferro.
Os copos de um vidro espesso a malga de barro, atestada de azeitonas pretas [...].
Espetado na côdea dum imenso pão reluzia um imenso facalhão."

Eça de Queirós

Outras Informações
A vida no Campo - Alimentação (2)
"Refeição do pessoal do monte:
(região de Elvas)

Almoço (às 7 ou 8 horas) - sopas ou migas
Jantar (cerca do meio-dia) - ôlha (cozido de legumes ou hortaliças, preparado com gordura, toucinho ou azeite)
Ceia (após o trabalho) - sopas de leite, de atabefe ou açorda, queijo, azeitonas, etc."

Silva Picão, Usos e Costumes Agrícola Alentejanos, Lisboa, 1983
(adaptado)

Outras Informações
A vida no Campo - Alimentação (3)
Ementa de uma boda de casamento
"(Alentejo)

Sopa de macarrão
Ôlha acompanhada de carne
Arroz com galinha
Ensopado
Fricassé
Coxo frito (guisado de borrego ou de chibo)
Salada, frutas, bolos, arroz doce e vinho."

Silva Picão, Usos e Costumes Agrícola-Alentejanos, Lisboa, 1983
(adaptado)

Outras Informações
A vida no Campo - Alimentação (4)
"0 pão e a sopa constituem a parte mais abundante de uma refeição. Azeitonas, queijo, gordura de porco, uma sardinha salgada formam o magro conduto. Apenas na bebida se desforram."

Orlando Ribeiro, Geografia de Portugal, vol. III
(adaptado)

Outras Informações
A vida no Campo - Fome e pobreza
"- Não imagine Vossa Excelência que faltam por cá doenças. 0 ar é bom. Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve, mas às vezes, se Vª Exª me dá licença, vai por aí muita maleita.
- Mas não há médico, não há botica?
- Mas já Vossa Excelência vê, esta gentinha é pobre! Tomaram eles para pão, quanto mais para remédios!
E, então surdiu por detrás do alpendre um rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma cara miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago pasmo, com vago medo.
Silvério imediatamente o conheceu.
- Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar ai. Eu ouço bem. Como vai a tua mãe?
- Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
Foi o Silvério que informou respeitosamente.
- É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira. E ainda tem outro abaixo deste... Filharada não lhe falta.
- Mas este pequeno também parece doente! - exclamou Jacinto. [...]
- Nada, este é sãozinho... Coitado, assim amarelito e enfezadito porque... Que quer Vossa Excelência? Mal comido, muita miséria. Quando há o bocadito de pão aquilo é para o rancho. Muita fomezinha, muita fomezinha.
- Fome? Mas há aqui fome? [...]
- Pois está bem de ver, meu senhor, que há aqui na quinta caseiros muito pobrinhos - quase todos... (...) Este Esgueira com o rancho de filhos, é uma desgraça... Havia Vossa Excelência ver as casitas em que eles vivem... São chiqueiros.
- Vamos ver essa! - atalhou Jacinto. (...)"

Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras, século XIX
(adaptado)

Outras Informações
A vida no Campo - Habitação
"Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo e para a gente."

Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras, século XIX
(adaptado)

Outras Informações
A vida no Campo - Trabalho e diversão (1)
"Nos dias de mercado e de feira, e que vão dar às vilas e cidades, as primeiras horas da manhã animam-se de gente, usando os seus melhores trajos, que vem comprar, vender ou simplesmente fazer-se encontrada num lugar de convívio."

Orlando Ribeiro, Geografia de Portugal, Vol. III

Outras Informações
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XIX-Romarias
A vida no Campo - Trabalho e diversão (2)
"E as festas do ano nos seus dias certos; as feiras e os mercados, os bailes se alguém casava; os serões pelo Inverno fora, aos domingos à tarde, no adro, o jogo da barra(1) e o do fito(2), enquanto em cima, no campanário, repicavam os sinos a algum batizado."

(1) Jogo da barra: jogo em que ganha quem atirar mais longe um pedaço de ferro de forma achatada.
(2) Jogo do fito: jogo em que se atira com uma bola ou malha a um alvo posto direito, no chão.

Trindade Coelho, Os meus amores, século XX - adaptado

Outras Informações
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XIX-Romarias
XIX-O jogo da "vaca das cordas"
A vida no Campo - Trabalho e diversão (3)
"A esfolhada fez-se na eira espaçosa e desafogada de José das Dornas e por formosíssima noite de Verão (...).
Um enorme monte de espigas ocupava o meio da eira.
Sentados em círculo à volta daquela alta pirâmide, trabalhavam azafamados parentes, criados, vizinhos, amigos e conhecidos, que sempre afluem aos serões desta natureza, ainda quando não convidados.
Às vezes saltava ao meio do círculo uma criança com grandes bigodes feitos de barbas de milho, e a ideia era logo apoiada e imitada por todas as outras As mães ralhavam rindo (...).
As raparigas e os rapazes atiravam uns aos outros o gorgulho que por acaso encontravam nas espigas, o que introduzia grande alvoroço e enchia os ares de gritos e de vozearias atordoadoras.
- Milho-rei! Milho-rei!
Aquele grito partindo de José das Dornas, que fora o primeiro a cujas mãos concedera a sorte, enfim, uma espiga vermelha.
A festa mudou súbita e completamente de carácter. (...) De todos os lados se pedia o cumprimento da lei das esfolhadas. Cabia pois a José das Dornas fazer a primeira distribuição de abraços."

Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor

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XIX-A Esfolhada
O Trabalho - de menores (1)
"A criança de sete a dez anos já conduz os bois, guarda o gado, apanha a lenha, acarreta, sacha, colabora na lavoura. Tem a altura de uma enxada e a utilidade de um homem. Sai de madrugada e volta à noite."

Eça de Queiroz, século XIX

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O Trabalho - de menores (2)
«Foi na minha saída da infância para a mocidade que eu assisti, como filho do patrão-uma espécie de Poder Moderador, - à entrada daqueles infelizes no Sofrimento. Iam as mães apresentá-los de seis a sete anos, alguns dos rapazitos tão enfezados que diríeis pequeninos esqueletos movidos por mola oculta debaixo dos farrapos. Recusava admiti-los o patrão, mas as mães, ou simples empresárias de enjeitados, alegavam em caramunha -que o pequeno comia por um homem, e que, apesar daquele feitio, era robusto e desembaraçado, e não havia remédio senão ganhar o pão. Precedentes considerações assim humanas, eram admitidos os neófitos da desgraça.
Distribuía-se-lhes trabalho de sol a sol. Nas horas de descanso iam fazer recados aos oficiais - buscar-lhes o almoço e o jantar a consideráveis distâncias, pelo que recebiam seus pontapés aplicados com a prodigalidade de besta-fera à imagem e semelhança de Deus. Dava-me para cismar a satisfação dos homens em maltratar os seus dependentes, e só vinquei orientar-me quando ouvi o caso de certo indivíduo que comprara um cão para ter alguém em quem bater.
De Inverno, ao romper da manhã, já os pequenitos esperavam, às escuras, debaixo de chuva, ou enregelados pelo frio, que se lhes abrisse o portão da fábrica. Alguns vinham de longe - lembro-me dos que vinham de Belém aos Terramotos. Tinham de levantar-se às duas horas da noite e vir descalços e rotos, tiritando, às vezes encharcados, para chegarem ao toque da sineta e não perderem um quartel. E de seis a sete anos de idade! Era uma fábrica de estamparia e tinturaria pelos processos manuais. Ganhavam os pequenitos 70 réis por dia e davam tinta aos estampadores. Pouco maiores, ganhando 6 a 8 vinténs, lavavam fazendas nos tanques, metidos, desde o romper da manhã d'inverno, na água à temperatura de 4 graus. Quási todos os martiresinhos tinham os pés chagados pelas frieiras.
A hora das refeições nunca vi nenhum deles tomar um caldo. Pão e uma sardinha frita: era o invariável menu. Quando as manhãs eram mais frias, eu ouvia-os da minha cama chorar na rua, debaixo da minha janela, à espera de que se abrisse o portão.

Já lá vão mais de trinta anos. Acontece-me às vezes encontrar por aí alguns dos pequenitos de então, e reconhecê-los sem dificuldade. Ficaram enfezados todos. Parecem os esqueletosinhos de outrora, um quási nada crescidos, e com barbas e cabelos russos. Têm um ar idiota os que o não têm agressivo: são estes os que, deram em semi-fadistas, os bairristas de Alcântara. Sei que de há trinta anos para cá deram os governos providências sérias em favor dos menores nas fábricas nomeando inspetores especiais que nunca os menores viram, nem eu, mas de cuja existência testemunha o contribuinte. Estes cuidados oficiais pela sorte dos pequenitos trabalhadores nos estabelecimentos particulares não destoam da vigilância e dos carinhos de que têm sido alvo os menores, em diversas épocas, nos estabelecimentos do Estado. É ver ali a casa da Correição.»

Silva Pinto. Noites de Vigília, nº 2, Lisboa, 1896, pp. 35-37.

Outras Informações
O Trabalho - dos pescadores
"(...) Quando saem do barco e o encolham, os pescadores não fazem mais nada - deitam-se na areia. 0 resto compete à mulher: é ela que lava as redes e o peixe, que o salga e carrega e que faz a lavoura da Barrinha. (...)
São as mulheres também que, depois da sardinha disputado a lanço, a levam à cabeça para a casa da salga, grandes barracões de madeira com manjedouras encostadas às paredes para as bestas e um depósito de sal branco de Aveiro. É ali que o almocreve a salpica de fresco antes de se meter a caminho, ou as mulheres a lavam em água ensossa."

Raul Brandão

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XIX-Pescadores
O Vestuário - Burguês e Aristocrático
"Tanto feminino quanto masculino, o vestuário do século XIX foi influenciado pela revolução industrial e pelo triunfo da burguesia. Surgiram novos tipos de tecidos e novas possibilidades de os colorir, desenhar, armar, segurar e coser. A moda alargou-se da nobreza à burguesia e, em certos casos, até ao povo, passando a ser definida por grandes costureiros e modistas. A França manteve a tradição de pátria da moda, embora a Inglaterra também desempenhasse um papel de relevo, sobretudo no vestuário masculino.
A moda passou por quatro grandes estilos, que nos permitem hoje datar quadros, gravuras e fotografias: estilo «1º Império» (ou simplesmente «Império») desde os começos do século até aproximadamente 1815; estilo «Romântico», de 1815 até cerca de 1850; estilo «2º Império», de 1850 até 1870; e estilo «Belle Époque», de 1870 até à Primeira Guerra Mundial.
No que respeita ao traje feminino, usaram-se sempre saias compridas, até ao chão, deixando por vezes ver o pé. A cintura usou-se alta, pouco abaixo dos seios, durante o estilo «Império», descendo depois para o seu lugar natural. Quanto à saia, foram-se alargando os seus volumes e roda, chegando a usar-se, por baixo do vestido, uma armação de lâminas de aço e barbatanas - a chamada crinolina - ou ainda quatro saias interiores de tecidos duros para permitir um máximo de volume. Esta moda atingiu o auge entre 1845 e 1866. Depois, abandonou-se a crinolina mas passou a usar-se por baixo do vestido, sobre os rins, uma espécie de almofada - a tournure - que levantava a saia atrás. A partir da década de 1890, a saia simplificou-se, mas surgiram grandes mangas de balão.
Desde 1815 os cabelos usaram-se sempre compridos, mas na forma de canudos, de tranças apanhadas, de bandós, de carrapitos no alto da cabeça, etc. Por cima punha-se um chapéu, de que houve variados modelos. Os da «Belle Époque» começaram por ser minúsculos, aumentando depois de tamanho e adornando-se com toda a espécie de enfeites. 0 estilo «Romântico» foi ainda caracterizado pelos seus famosos xailes de caxemira, que as senhoras da alta sociedade traziam por cima do vestido, em posições várias.
A moda feminina estava em constante mudança, sendo publicados em todos os países jornais de modas que ensinavam as damas elegantes a vestir-se segundo os últimos modelos de Paris.
0 traje masculino mostrou-se menos dado a modas e a variações. A generalização do trabalho a todas as classes e o conceito de homem másculo, pouco interessado em «trapos», impuseram-se pouco a pouco. Mas também o seu vestuário sofreu algumas evoluções.
Três das peças principais do traje masculino foram a casaca, o colete e as calças. Mas a casaca saiu gradualmente do uso quotidiano para se transformar em traje de cerimónia. Em sua substituição surgiram a sobrecasaca, que descia abaixo dos joelhos e o casaco, à maneira de hoje, aparecido no começo da «Belle Époque». As calças, que muitos ainda usavam de tipo calção durante o estilo «Império», eram compridas, surgindo o respetivo vinco só no final do século. Durante muito tempo preferiram-se tecidos diferentes para a casaca (ou seus substitutos), o colete e as calças. Por baixo vestia-se uma camisa e punha-se sempre uma gravata, cuja forma variou muito. A casaca de cerimónia, preta a partir do Estilo «2º Império» sofreu depois a concorrência do smoking, usado aliás em momentos diferentes.
Na cabeça usava-se sempre chapéu, sendo o chapéu alto o preferido. Na «Belle Époque» generalizaram-se o chapéu de coco e, mais tarde, o chapéu mole e o palhinha (chapéu de palha) no tempo quente.
Foram grandes a profusão e a variação de uniformes, não só dentro das Forças Armadas mas também para distinguir numerosas profissões. Surgiu igualmente o vestuário desportivo. As crianças e os adolescentes passaram a ter as suas roupas próprias.
0 cabelo masculino usou-se em geral cortado mas com penteados vários. Nos meados e finais dos séculos apareceram bigodes, barbas e suíças em quantidade mas obedecendo sempre aos ditames da moda."

Outras Informações
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XIX-Vestuário
Bibliografia:
OLIVEIRA, A. R.; CANTANHEDE, F. MENDONÇA, M. O. (1996). História e Geografia de Portugal - 6º ano. Lisboa: Texto Editora.

A Alimentação - da nobreza e da burguesia
"Para o baile de 15 de Fevereiro de 1852, o primeiro que tem lugar depois das obras, saem da Real Ucharia, com destino ao paço de Belém, 174 arráteis de carne de vaca, 86 de carne de vitela, 47 de carne de carneiro, 24 frangas, 17 galinhas, perus e peruas, 62 presuntos, arroz, cebollas, cinoulas, cogumellos, cravo da índia, canela, miolo de amêndoa, baunilha, chocolate, nata, limões, laranjas e tangerinas, entre outros géneros habituais".

António J. Saraiva, O Palácio de Belém

Outras Informações
Dicionário:
Arrátel
O Namoro (1)
"Os comportamentos mudam ao longo dos tempos. 0 namoro no século XIX de que te vamos falar assim o prova, pois era bem diferente do namoro dos nossos dias e mesmo do namoro do século XVIII a que já nos referimos. Assim, no século passado tudo acontecia tal qual se descrevia nos romances que povoavam os sonhos das meninas casadoiras.
0 namorado era normalmente arranjado pela própria família ou pela «alcoviteira» que se encarregava de promover os encantos da jovem. Muitas mães, na intenção de arranjar marido para as filhas, saíam todas as tardes com elas e iam sentar-se num banco de jardim.
As meninas desta época não podiam sair à rua sozinhas; podiam, no entanto, «tomar ar à janela da sua casa, o que só lhes era autorizado durante meia hora depois do almoço e outra meia hora depois do jantar. Não lhes era permitido dar atenção a quem passava e, se algum rapaz as fixava, ou olhava para trás para as ver, então, conforme recomendação das mães, elas «davam-lhe com a janela na cara».
Os namorados não deviam encontrar-se a sós. Até ao casamento, várias etapas se tinham de percorrer mantendo sempre os apaixonados a uma prudente distância. 0 candidato a marido deveria contentar-se com bilhetinhos trocados nas costas da mãe desatenta ou com um olhar mais atrevido.
Na fase oficial do noivado, poucos tinham acesso ao interior do lar da amada; contentavam-se em ficar na calçada, donde tentavam fazer chegar recados amorosos à janela da futura noiva.
Este era o chamado namorado «estaca» que do meio da rua suspirava por um lencinho ou uma madeixa de cabelo oferecida como recordação.
0 namoro tinha ainda os seus dias, as suas épocas e os seus locais preferidos. Um deles era o da data comemorativa do 24 de julho pois em Lisboa «enquanto os pais de nariz no ar admiravam as iluminações, as filhas namoravam mais à vontade».
Também as noites dos santos populares, os arraiais e as romarias eram aIturas onde o amor tinha «trono». Os bailes, as procissões e as épocas de praia eram também muito aproveitadas para o namoro e para a conquista."

Outras Informações
Imagens:
XIX-Dama acompanhada pela alcoviteira
Bibliografia:
OLIVEIRA, A. R.; CANTANHEDE, F. MENDONÇA, M. O. (1996). História e Geografia de Portugal - 6º ano. Lisboa: Texto Editora.

O Namoro (2)
"No século XIX ainda era complicadíssimo namorar. 0 rapaz só podia aproximar-se da rapariga de quem gostava com autorização do pai dela e sempre na presença de pessoas de família. Mas entrar em casa da namorada significava que estavam noivos e que em breve iriam casar. Antes de haver um compromisso só podiam comunicar por carta ou verem-se de longe. As meninas iam à varanda e os namorados faziam-lhes sinalefas do passeio em frente.
Alguns pais mais austeros nem isso consentiam, e as infelizes só conseguiam espreitar por trás das cortinas. 0 rapaz aguardava horas seguidas à chuva ou à torreira do sol, muitas vezes para ver apenas uma sombra na vidraça...
Mas nem por isso o amor diminuía!"

Outras Informações
Imagens:
XIX-Dama acompanhada pela alcoviteira
Bibliografia:
MAGALHÃES, A.M.; ALÇADA, I. (1993). Um Trono para dois Irmãos. Lisboa: Editorial Caminho.

O Correio - A espera
"Havia uma casa térrea, caiada de branco, com portas verdes e janelas envidraçadas, sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituídos por papel. À porta desta casa estava muita gente parada: mulheres, velhos, moços, crianças, uns sentados outros deitados, outros a pé e encostados à ombreira e todos aparentemente aguardando alguma coisa ou alguém do lado de uma das ruas...
Henrique aproximou-se desta casa com alguma curiosidade que cedo satisfez, vendo numa tabuleta... a seguinte pomposa inscrição:
'Repartição do Correio.'"

Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais

Outras Informações
O Correio - Distribuição
"Há de facto poucas cenas animadas, como a da chegada do correio e da distribuição das cartas em uma terra pequena. (...)
Mestre Bento Pertunhas começou em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescritos. (...)
A cada nome proferido, erguia-se quase sempre uma voz, às vezes um grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos acrescentar, ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.
Outros os não nomeados ainda, olhavam com ansiedade para o maço, que diminuía, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante. (...)
- Joana Pedrosa, de Serzedo - continuava ele.
- Aqui estou; será o meu António, senhor? - disse uma velha, pobremente vestida.
- Será do seu António, será - respondeu o insensível funcionário; - o que lhe posso dizer é que traz obreia preta.
A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo aquelas sinistras palavras. Apanharam-lha; e ela, tomando-a, saiu da loja, a chorar lastimosamente.
- Se foi o filho que lhe morreu, não sei que há-de ser dela - disse um dos circunstantes.
- Coisas do mundo! - respondeu outro.
Estes comentários foram interrompidos pela continuação da leitura.
- João Carrasqueiro.
- Pronto, senhor - bradou um velho.
- A mesada, hem? - disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos óculos."

JÚLIO DINIS A Morgadinha dos Canaviais
(Adaptado)

Outras Informações
O Correio - A leitura das cartas
"Aquela mulher parava ali, para ler a essa gente, pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.
- ... E, por isso, minha mãe - lia ela - se Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa terra e darei remédio a tudo (...).
E continuou a ler a carta, no meio das lágrimas e das expansões de alegria da ouvinte (...).
Após esta, ainda outra e outra; uma de marido para mulher; outra de filho para mãe; outra de noivo para noiva."

Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais, século XIX
(adaptado)

Outras Informações
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XIX-Leitura do correio
Os Transportes - no início do século
«(No principio do século XIX) por terra, o transporte de mercadorias só era possível no dorso de mulas. Carroças nem as havia, nem por onde circulassem.
Os viajantes, para pequenas viagens, tinham o recurso ao burro, à mula, e quando se tratava de viagem mais longa, ao cavalo ou, então, à liteira de dois lugares: uma espécie da cadeirinha sustentada por dois varais e conduzida por duas bestas, uma atrás, outra adiante.
Em Lisboa, Porto, Coimbra, encontram-se «cabriolets», carros de duas rodas que logram obter o recorde de velocidade: 7 léguas por dia! Ou seja: de Lisboa ao Porto, a viagem leva cerca de uma semana:
(...) Sem estes obstáculos (falta de boas estradas e meios de transporte modernos), o comércio podia ser de maior importância pela riqueza do solo e variedade dos seus produtos (...) É certo que a grande extensão das costas em relação à pequena superfície deste reino diminuem muito estes inconvenientes: assim, pode dizer-se que todo o comércio de Portugal se faz por mar.»

A. Balbi, Essai Statistique
(adaptado)

Outras Informações
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Liteira
Os Transportes - A Mala-posta
"Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mailos filhos
A terra estrumam, e depois
os bois atrelam ao arado
E ouve-se além do descampado
Num ímpeto aos berros: - Eh! bois!

E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeões, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa-os sós."

António Nobre, Só

Outras Informações
Dicionário:
Mala-posta
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Malaposta
Diligência (séc. XIX)
Os Transportes - O Comboio (1)
"Era já noite quando chegámos a Marvão, em Portugal. Muitos sujeitos, aos grupos, na plataforma, conversavam entre si, ou dirigiam-se aos viajantes que os interrogavam ou que eles interrogavam, com um ar atencioso, averiguador (...).
Quando complexos factos oficiais foram devidamente atendidos e o comboio esteve pronto a partir, um empregado tocou uma grande sineta: era o primeiro sinal. Minutos depois ouviu-se uma corneta ou buzina, em seguida um apito e, por fim, dois silvos da locomotiva. Só então começamos a andar, com cautela.
(...) E sempre, antes da partida do comboio, eu ouvia primeiro um toque de sineta, seguido d'um toque de buzina, d'um toque d'apito e d'um silvo de máquina.
Chegámos todavia ao Entroncamento com uma hora de atraso e tivemos ainda não sei se duas de espera.
Fui cear.
Nas duas longas mesas reuniram-se os passageiros de 1ª classe do comboio que vinha de Lisboa para o Porto, para Badajoz, para Cáceres, do que vinha do Porto para Lisboa e para Espanha, e de mais dois comboios provenientes de Espanha: éramos, ao todo, 8 pessoas.
Comemos nós os 8, com notável apetite.
De manhã cheguei a Lisboa."

"A Ilustração" - Outubro de 1887

Outras Informações
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1856-Inauguração do caminho-de-ferro-Carregado
Os Transportes - O Comboio (2)
"Com um grande estrondo o comboio entrou na estação. A plataforma ficou logo cheia de gente, que ia, arrebatada, com embrulhos, chapeleiras, acotovelando-se. Saloios com os passos pesados das suas solas pregueadas, apressavam-se: havia nas faces um ar estremunhado e pasmado; uma criança chorava desesperadamente, e, quando à porta de saída o empregado lhe quis ver as malas, Artur, empurrado, atarantado, envergonhado, não encontrava as chaves. As mãos tremiam-lhe, sentia-se tímido, quase tinha saudades da casa das tias, da pequenez de Oliveira de Azeméis. E depois, com o seu bilhete de bagagem, muito embaraçado, quase aflito, errava pela grande sala de espera, dando aqui e além um olhar aos anúncios, onde se lia em grandes letras nomes de cidades - Sevilha, Córdova, Madrid, Paris - que lhe representavam civilizações magníficas e lhe davam um acanhamento maior.
Enfim, um carregador, que parecia ocupado por deleite próprio em resmungar blasfémias, levou-lhe com um ar soturno o baú a uma caleche, e o cocheiro bateu para o Espanhol."

Eça de Queirós. A Capital

Outras Informações
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1856-Inauguração do caminho-de-ferro-Carregado
Os Transportes - A Diligência
"Uma coisa digna de estudar é o aspeto das diligências que circulam sobre estas estradas.
Dois pequenos garranos puxam por cima do macadame faiscante de sol as mais fantásticas carradas de gente e de objetos que a imaginação pode conhecer. Dentro do veículo senta-se a primeira camada de passageiros nas bancadas. Depois de todos os lugares ocupados mete-se-lhe a segunda camada de passageiros, colocada exatamente em cima da primeira. Feita esta operação começa o interior do carro a achar-se quase cheio, mas entre o teto, os joelhos e os bustos dos passageiros da segunda camada nota-se ainda um espaço. Preenchido este espaço com um passageiro estendido ao comprido, passa-se a ocupar o tejadilho.
Do lado de fora, os passageiros são ensanduichados com as bagagens e com as mercadorias: camada de mercadorias, primeira camada de passageiros, primeira camada de bagagens, segunda camada de passageiros, segunda camada de bagagens; e em cima de tudo isto, o penso para os garranos, os merendeiros e os varapaus dos passageiros e, no ar, o cocheiro levado a braços pelos viajantes."

RAMALHO ORTIGÃO As Farpas

Outras Informações
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Diligência (séc. XIX)
Os Transportes - O Automóvel
"0 primeiro automóvel que circulou em Portugal veio de França e foi adquirido pelo Conde Avilez, em 1895. Era um Panhard mas com um motor Daimler de 2 CV, capaz de atingir a velocidade máxima de 20 km/h. Não possuía qualquer instalação elétrica e o sistema de ignição era constituído por dois Maçáramos que forneciam uma chama à câmara de combustão. Inicialmente, encheu-se o depósito com petróleo mas o motor não pegava. Até que alguém se lembrou de tentar com gasolina. No entanto, como naquela época a combustão da gasolina oferecia muitos perigos de explosão, ninguém teve coragem de ligar o carro. Então, viram um galego que ia a passar e que não percebia nada do assunto. Por isso, quando lhe pediram para dar à manivela não se fez rogado. E o motor começou a trabalhar.
Sentado ao volante, o seu proprietário dirigiu o carro para uma ladeira. Ao acionar os travões, porém, verificou que o veículo tinha dificuldades em parar. Atrapalhado, só teve tempo de ir contra um burro que, assustado, acabou por ser o verdadeiro travão do Panhard."

José Hermano Saraiva, in Horizontes da Memória, RTP 2 (29/12/96)

Outras Informações
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O Automóvel
Higiene, doenças-luta contra a varíola
"A varíola (as "bexigas", como era designada na linguagem popular e mesmo nos textos jornalísticos) foi um dos males endémicos mais comuns do século XIX. (...) Para além da grande mortalidade que provocava (...) a varíola produzia deformidades e sequelas mais ou menos graves, quer ao nível dos tecidos da pele (em especial da cara), quer ao nível dos diversos órgãos sensoriais, deixando atrás de si avultado número de cegos, surdos, tartamudos e estropiados. (...)
Em 1888, o Dr. Carlos Moniz Tavares lançou as bases do Parque Vacinogénico de Lisboa, iniciando uma ampla campanha de vacinação contra a varíola, depois de ter visitado os grandes centros estrangeiros."

Outras Informações
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Enfermaria hospitalar (séc. XIX)
Bibliografia:
Direção de José Matoso. (1993). História de Portugal. Lisboa: Edição Círculo dos Leitores.

Higiene e doenças - febre tifóide
"Corria o Outono de 1861. 0 rei e os príncipes tinham ido caçar a Vila Viçosa. De regresso a Lisboa, D. Fernando sente-se mal. 0 diagnóstico virá, terrível: febre tifoide provocada pelos miasmas da água de um charco onde todos tinham bebido.
A 6 de Novembro, no Palácio de Belém, o jovem infante sucumbia. Era o primeiro. D. Pedro, nessa altura, delirava já nas Necessidades.
Dos três irmãos envenenados, só um, D. Augusto, se salvará."

António J. Saraiva, O Palácio de Belém

Outras Informações
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Enfermaria hospitalar (séc. XIX)
O Progresso - O medo (1)
"[...] Numa ocasião em que o missionário fulminava com mais veemência os progressos da indústria moderna e chamava redes do demónio e caminhos do Inferno aos telégrafos elétricos e às vias férreas, Henrique, aproximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão tanto a propósito que a morgadinha não conteve o riso e a própria Cristina sorriu também.
Era de mais! 0 padre pulou no púlpito. Com os olhos em chamas, as faces apopléticas, os lábios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos e estendidos na direção de Henrique, rompeu nestes violentos termos:
- Fora do templo, pedreiros-livres, que vindes aqui escarnecer da palavra do Senhor! Fora do templo, ímpios libertinos, que não respeitais os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçai-os, irmãos, se não quereis que se vos peque a lepra do pecado e que Deus arrase esta aldeia, como arrasou Gomorra e Sodoma. São esses que trazem das cidades a peste para as aldeias; são estas as pragas que nos vem com as estradas e com a civilização. Fugi deles, que trazem o demónio na alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros-livres, vindes para aqui . tentar as almas? Eu vos esconjuro! Eu vos requeiro! Vade-retro, Satanás, vade-retro! Vade-retro...
E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionário estendia o braço na direção de Henrique."

Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais

Outras Informações
Imagens:
1856-Inauguração do caminho-de-ferro-Carregado
Telégrafo
O Progresso - O medo (2)
"- Dizem que vão principiar com os trabalhos da estrada - informou o taberneiro, enchendo de novo o copo do sr. Joãozinho.
- Pois que vejam no que se metem. Cautelinha comigo! - respondeu este. - Faço como daquela vez em que eu e a minha gente queimámos toda a papelada da Câmara.
- Agora no Inverno é que vão principiar com os trabalhos!... Sempre se lia em boa! - disse, encolhendo os ombros, mestre Pertunhas.
- Então não sabe que as eleições são em Fevereiro? - veio-lhe à mão o brasileiro.
- Ai, é verdade! Não me tinha lembrado disso! - exclamou o padre.
- Quando se fala em estradas, já estou a tremer - disse um dos lavradores. - 0 que elas vêm cá fazer é cortar-nos os campos, e afinal nem sei para que servem.
Isso não é assim - atalhou o brasileiro. - Vossemecê é ignorante e por isso é que fala desse modo.
- E essa teima agora em querer obrigar o povo a enterrar-se no cemitério?!
- Deram-lhes para dizer que fazia mal enterrar nas igrejas. É moda e acabou-se. Dantes enterrava-se lá toda a gente e não havia mais doenças do que agora - disse o padre.
Estas novidades abalaram os lavradores."

Júlio Dinis (séc. XIX), A Morgadinha dos Canaviais

Outras Informações
Dicionário:
Eleição
O Progresso - O medo (2)
"Não foi só o comboio a assustar a população. De uma maneira geral, todas as novidades provocam desconfiança e receio. Quando apareceram os primeiros fósforos, que na linguagem corrente se chamavam «palitos fosfóricos» ou «palitos para acender lume», contaram-se logo histórias terríveis. Eram perigosíssimos, podiam provocar incêndios mesmo sem ninguém lhes tocar, já tinham sido postos de parte nos países civilizados, provocavam doenças, e mesmo dentro da caixa envenenavam os alimentos que estivessem próximos!"

Outras Informações
Imagens:
1856-Inauguração do caminho-de-ferro-Carregado
Bibliografia:
MAGALHÃES, A.M.; ALÇADA, I. (1993). Um Trono para dois Irmãos. Lisboa: Editorial Caminho.

O Progresso - O fascínio
"Ao fundo... era o gabinete de trabalho de Jacinto... Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta de instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas...
0 que, porém, mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram os grandes aparelhos facilitadores do pensamento - a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo, o fonógrafo, o telefone,... todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam... Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim! Craque, craque! Trr, trre!...
Era o meu amigo comunicando!"

Eça de Queirós, "Civilização" (conto publicado em 1902)

Outras Informações
Imagens:
Telefone
Telégrafo
Emigração - A partida (1)
"Mal a viu, Amélia correu ao seu encontro e abraçou-a, enchendo-lhe de lágrimas as faces e as mãos:
- Ele sempre vai! Ele sempre vai!
- Ah! - e Deolinda principiou também a choramingar.
Manuel da Bouça ouviu-lhes os soluços durante alguns momentos; depois ergueu-se com atitude de mau humor.
- Basta de choradeiras! - exclamou. - nem que o Mundo fosse acabar... Já se viu uma coisa assim!
Amélia obedeceu-lhe e as suas lágrimas começaram a deslizar em silêncio".

Ferreira de Castro, Os Emigrantes.

Outras Informações
Dicionário:
Emigração
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Partida de emigrantes (séc. XIX)
Emigração - A partida (2)
"Despovoam-se de homens aldeias inteiras; noutras fica a minoria guardando as casas da maior parte que fugiu. Não se viaja na nossa linha litoral de Lisboa ao Porto sem quase se poder escapar, nas vésperas de saída dos paquetes, ao aflitivo espetáculo das despedidas das famílias aos homens que vão para o Brasil: adeus, soluços, lágrimas e gritos. É frequente ver no cais do Terreiro do Paço, em Lisboa, muita gente de manta ao ombro, cajado empinado ao lado, chapéu queimado pelo tempo, com o tom severo e triste dos trajos camponeses beirões. São levas e levas de emigrantes."

Oliveira Martins, in Jornal do Comércio 1891

Outras Informações
Dicionário:
Emigração
Imagens:
Partida de emigrantes (séc. XIX)
Emigração - Emigrantes portugueses no Brasil
"Comiam, dormiam e trabalhavam como escravos, quer dizer tinham a sua ração de carne seca, feijão e farinha, que eram obrigados a cozinhar para comer na hora do almoço e do jantar.
Sanzalas eram as habitações que constavam de um pequeno quarto não soalhado, com porta e janela, tendo por cama uma esteira e por mobília uma pedra para se sentarem. Trabalhavam a par dos escravos, comandados pelo feitor, também escravo(...).
0 trabalho principiava ao romper da alva e terminava às nove horas da noite, apenas com a interrupção das refeições. De dia cavavam na terra, de noite lançavam ou tiravam tijolos do forno."

Primeiro Inquérito Parlamentar sobre Emigração, em 1873

Outras Informações
Dicionário:
Emigração
Escravo
Emigração - O regresso
"Havia povo à entrada da aldeia na expectativa do brasileiro rico: mulheres com as mãos cruzadas sobre as barrigas (...); rapazitos em fralda suja e esfarrapada, coçando as pernas picadas pelas moscas, e repuxando as saias das mães, a pedirem pão com esgares lamuriantes; homens que vinham das malhadas sentavam-se no cruzeiro, com as calças brancas arregaçadas até à coxa. 0 criado do abade, um torto que limpava a égua e ia buscar a carne ao Arco, estava no adro, e, logo que avistou na revolta do caminho a ama, atirou ao ar seis bombas reais, e enfiando pela escada da torre começou a repicar dois sinos a um tempo com a veemência febril de quem toca a fogo. 0 José Macário, que estava à porta da botica e mais um grupo de trolhas que trazia na casa, fizeram subir dúzias de foguetes de três respostas, enquanto um dos trolhas disparava doze morteiros que retumbavam nos ecos da corda de serras com fragor alegre. Povo corria de todos os quinchosos; rapazolas com os chapéus nas mãos e as caras no ar, dando pulos por sobre as sebes, aparavam as canas dos foguetes e espojavam-se a disputá-las com grandes gritos e sopapos. Havia o contágio da alegria, a exultação bruta que dá a eletricidade do sino e do foguete. Malhadores atiravam os chapéus ao ar, e berravam eh! eh! uns monossílabos selvagens com que saúdam os forasteiros e afoitam os bois derreados nas ladeiras escorregadias. Cães de uma magreza esquelética uivavam quando o foguete rechinava subindo; outros, com as caudas retraídas, aflitos, saltavam paredes, guinchando latidos de pavor. A égua em que montava o brasileiro, abacial, pacífica, resfolegava, curveteava, ladeava, fazia programas de coices. Ele abria muito as pernas e agarrava-se às crinas dizendo: chó, chó, não mi dérrubes!"

CAMILO CASTELO BRANCO Eusébio Macário
(Adaptado)

Outras Informações
Dicionário:
Emigração
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XIX-Um "Brasileiro"
Pregões populares
Que-em compra os ovos?
Que-em merca o leite-e-e?
Oh! - Que rico safio go-o-ordo!
Com-ompra chi-i-tas e algodões!
Ó-ó fa-va ri-ca!

Outras Informações
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XIX-Figuras típicas de Lisboa e do Porto (1)
XIX-Figuras típicas de Lisboa e do Porto (2)
XIX-Figuras típicas de Lisboa e do Porto (3)
XIX-Figuras típicas de Lisboa e do Porto (4)
Bibliografia:
LUCENA, M. M.; CALADO, R. (1996). História e Geografia de Portugal - 5º Ano. Lisboa: Ed. Constança.